Durante muitos anos, comprar uma casa a precisar de obras podia ser visto como uma oportunidade. O comprador adquiria o imóvel por um valor mais baixo, remodelava ao seu gosto e, em muitos casos, conseguia criar uma habitação personalizada e potencialmente mais valorizada.
Mas o comportamento de muitos compradores está a mudar.
Hoje, uma casa pronta a habitar tem uma vantagem cada vez mais evidente: permite ao comprador saber melhor aquilo que está a comprar e evitar uma segunda grande decisão financeira depois da escritura.
E isto está a ter impacto na forma como os imóveis com necessidade de obras são percecionados no mercado.
O problema não é apenas o custo das obras
À primeira vista, a explicação parece simples: os compradores não querem gastar dinheiro em remodelações.
Mas a realidade é mais complexa.
O verdadeiro problema está muitas vezes na incerteza associada às obras.
Quando um comprador visita uma casa que precisa de remodelação, não está apenas a avaliar o preço do imóvel. Está também a tentar imaginar:
- Quanto vai custar a renovação?
- Quanto tempo vai demorar?
- Será necessário substituir canalização ou eletricidade?
- Existem problemas estruturais?
- Quanto vão custar cozinha e casas de banho?
- Será possível encontrar profissionais disponíveis?
- O orçamento inicial vai manter-se?
- Durante quanto tempo será necessário esperar até poder mudar-se?
Estas dúvidas podem transformar uma oportunidade aparentemente interessante num investimento difícil de calcular.
O comprador atual quer previsibilidade
O mercado habitacional português continua marcado por preços elevados. Segundo dados do INE, em 2025 o preço mediano dos alojamentos familiares transacionados em Portugal atingiu 2.076 €/m², mais 16,8% do que no ano anterior.
Neste contexto, muitos compradores já entram numa aquisição com uma margem financeira mais limitada.
Se, depois de comprar, tiverem de reservar mais dezenas de milhares de euros para obras, a decisão torna-se muito mais difícil.
Além disso, o próprio custo de construção continua a pressionar os orçamentos. Em 2025, o custo de construção de habitação nova aumentou, em média, 4%, sobretudo devido ao aumento de 7,7% dos custos de mão de obra.
Ou seja: comprar barato e remodelar deixou de ser automaticamente sinónimo de comprar bem.
O fator tempo também pesa
Existe ainda outro problema frequentemente esquecido: o tempo.
Uma família que compra casa quer, na maioria dos casos, mudar-se rapidamente.
Uma remodelação pode significar semanas ou meses de espera, decisões constantes, visitas a fornecedores, alterações de orçamento e imprevistos.
E encontrar profissionais disponíveis pode ser outro desafio.
Em 2026, os pedidos de serviços de construção e remodelação aumentaram significativamente, enquanto a capacidade de resposta dos profissionais diminuiu.
Para um comprador que pretende mudar de casa rapidamente, este fator pode ser decisivo.
Então as casas com obras deixaram de ter valor?
Não.
É importante separar duas situações completamente diferentes.
Uma casa que necessita de pequenas melhorias pode continuar a ser muito interessante.
Uma pintura, uma atualização da cozinha, a substituição de pavimentos ou algumas melhorias estéticas podem representar um investimento relativamente controlado.
Já uma casa que exige uma remodelação profunda apresenta um nível de risco muito superior.
A diferença está na capacidade de transformar o “precisa de obras” numa informação concreta.
Um comprador pode aceitar obras quando percebe claramente:
- O que precisa de ser feito;
- Quanto poderá custar;
- Quanto tempo poderá demorar;
- Qual será o resultado final;
- Se o preço de compra compensa esse investimento.
Para quem vende, isto muda completamente a estratégia
Se um imóvel precisa de obras, simplesmente colocá-lo no mercado com a indicação “necessita de remodelação” pode não ser suficiente.
É necessário explicar a oportunidade.
Em alguns casos, pode fazer sentido apresentar estimativas de intervenção, plantas, imagens de referência ou uma solução de remodelação que permita ao comprador visualizar o potencial da casa.
Isto reduz a sensação de risco.
E há uma razão para esta estratégia fazer sentido: comprar um imóvel para renovar pode, em determinadas situações, representar uma poupança significativa face a uma casa já remodelada. Um estudo do idealista/data apontou para diferenças de 20% a 30% em determinados segmentos e localizações.
Portanto, o problema não é necessariamente ter obras. O problema é o comprador não conseguir perceber o verdadeiro custo e potencial dessas obras.
Uma casa remodelada vende uma decisão mais simples
Quando um comprador entra numa casa pronta a habitar, consegue avaliar imediatamente vários fatores:
- distribuição;
- luminosidade;
- estado dos acabamentos;
- conforto;
- funcionalidade;
- estética;
- necessidade ou não de investimento adicional.
A decisão torna-se emocionalmente mais simples.
Em vez de pensar “será que consigo transformar esta casa?”, o comprador pensa “consigo imaginar-me a viver aqui?”.
E essa diferença pode ser determinante.
O que devem fazer os proprietários que têm uma casa com obras?
Não significa necessariamente que todos os imóveis devam ser remodelados antes da venda.
Cada caso deve ser analisado individualmente.
Antes de investir em obras, é importante perceber:
1. Qual é o público-alvo do imóvel?
Uma casa destinada a investidores pode ser valorizada de forma diferente de uma habitação destinada a uma família.
2. Que obras realmente acrescentam valor?
Nem todas as intervenções têm o mesmo retorno.
3. Qual é o orçamento disponível?
Fazer obras sem uma estratégia pode aumentar o investimento sem aumentar proporcionalmente o valor de venda.
4. Qual é o posicionamento correto no mercado?
Por vezes, vender a casa como projeto de renovação pode ser mais inteligente do que realizar uma remodelação completa.
A conclusão é simples
Os compradores não deixaram necessariamente de gostar de casas com potencial.
Deixaram foi de querer comprar incerteza.
Num mercado onde a habitação está cara, os custos de construção continuam elevados e a disponibilidade de profissionais pode ser limitada, a previsibilidade tornou-se um fator de decisão cada vez mais importante.
Por isso, uma casa com obras pode continuar a ser uma excelente oportunidade — desde que o comprador consiga perceber claramente o que está a comprar, quanto terá de investir e qual será o resultado.
Para quem vende, a questão já não deve ser apenas:
“A minha casa precisa de obras?”
A pergunta mais importante é:
“Estou a apresentar ao comprador uma oportunidade ou estou a apresentar-lhe um problema?”
Essa diferença pode ter um impacto significativo na perceção do imóvel, no número de interessados e no processo de venda.
Precisa de ajuda sobre este tema?
Eunice Carvalho
Consultor Imobiliário — MaisConsultores TEAM
📍 Zona Oeste
📱 910 176 141
✉️ eunice.carvalho@maisconsultores.pt
🏢 AMI: 23990
👉 Fale comigo sem compromisso.